“O olho dela vai para fora quando está cansada, mas na consulta parece normal.” Esse é o relato mais típico da exotropia intermitente, o tipo de estrabismo em que o olho desvia para fora em alguns momentos e volta ao alinhamento em outros. É justamente por aparecer e desaparecer que a dúvida sobre o que fazer é tão comum.
Sou a Dra. Laís Sakano, oftalmologista especialista em Estrabismo e Oftalmopediatria em Sorocaba, e neste texto explico como acompanho a exotropia intermitente e o que define o momento de observar ou de operar.
O que é exotropia intermitente?
É um desvio em que um dos olhos se afasta em direção à orelha em alguns momentos, enquanto em outros os dois olhos permanecem alinhados. Costuma aparecer na primeira infância e é um dos tipos mais frequentes de estrabismo divergente. Como o alinhamento é preservado por parte do tempo, muitas crianças mantêm boa visão binocular, o que faz do acompanhamento uma parte central do cuidado.
Em quais momentos o desvio costuma aparecer?
Os pais costumam perceber o desvio em situações como:
- Quando a criança está cansada, com sono ou distraída
- Em ambientes muito claros, quando fecha um dos olhos ao sol
- Em momentos de estresse ou de muita concentração
Fechar um olho sob luz forte é um dos sinais mais característicos e merece ser relatado na consulta.
Como o desvio é acompanhado?
O ponto mais importante é entender com que frequência o desvio aparece e se o controle do alinhamento está mantido ou piorando. Como a criança tende a controlar melhor o olho durante a consulta, o relato da família faz muita diferença. Fotos e vídeos curtos, tirados nos momentos em que o desvio aparece, ajudam a completar a avaliação. Além disso, meço o desvio para longe e para perto e avalio a visão de cada olho.
Quando é possível apenas observar?
Quando o desvio é pequeno, aparece pouco, o controle do alinhamento é bom e a criança não tem queixas nem perda de visão, o acompanhamento regular costuma ser uma opção adequada. Nesse cenário, as consultas periódicas permitem identificar cedo qualquer mudança na frequência ou no controle do desvio.
Que tratamentos existem antes da cirurgia?
Em casos selecionados, algumas estratégias podem ajudar a melhorar o controle do desvio:
- Correção do grau nos óculos, incluindo o uso de lentes com grau ajustado para estimular o alinhamento
- Oclusão de um dos olhos por algumas horas do dia
- Exercícios ortópticos, em casos de insuficiência de convergência
Essas opções não são indicadas para todos, e a escolha depende do tipo de desvio, da idade e da resposta de cada criança.
Quando a cirurgia é considerada?
A cirurgia entra na conversa quando o desvio passa a aparecer com mais frequência, o controle do alinhamento diminui, há sintomas como cansaço visual ou perda da visão binocular, ou o ângulo é grande. O momento ideal é individual: operar cedo demais nem sempre é necessário, e esperar demais pode fazer o controle piorar. Como a exotropia pode voltar com o tempo, o acompanhamento depois da cirurgia também é importante.
O que você não deve fazer
Não conclua que está tudo bem só porque o olho estava alinhado na consulta, e não deixe de registrar os momentos em que o desvio aparece. Também não faltem às consultas de acompanhamento por achar que “o desvio é só de vez em quando”: é justamente a mudança na frequência que orienta a decisão.
Um desvio que pede olhar atento ao longo do tempo
A exotropia intermitente é um quadro que evolui, e por isso o cuidado é feito em etapas: observar, tratar quando necessário e operar no momento em que a cirurgia traz mais benefício.
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Escrito por Dra. Laís Sakano · Oftalmologista, especialista em Estrabismo e Oftalmopediatria · CRM-SP 184.888 · RQE 85.844 · Membro titular do Centro Brasileiro de Estrabismo (CBE) e chefe do Ambulatório de Oftalmopediatria do Banco de Olhos de Sorocaba (BOS).


