“Ela não quer mais tirar foto.” “Ele começou a evitar olhar as pessoas de frente.” Esses relatos aparecem com frequência no consultório, vindos de pais de crianças maiores ou de adultos que convivem há anos com um estrabismo não tratado. O impacto vai muito além da visão.
O estrabismo é, antes de tudo, uma condição visual, mas suas consequências emocionais e sociais são reais e merecem ser reconhecidas como parte do quadro, não como um detalhe secundário.
Sou a Dra. Laís Sakano, oftalmologista especialista em Estrabismo e Oftalmopediatria em Sorocaba, e neste texto falo sobre um lado do estrabismo que nem sempre é discutido: o impacto na autoestima e na vida social de quem convive com o desvio.
Por que o estrabismo afeta a autoestima?
O contato visual é uma das formas mais básicas de comunicação entre as pessoas. Quando o olhar não segue a direção esperada, isso pode gerar constrangimento tanto para quem tem o desvio quanto, às vezes, para quem está conversando, o que gera situações desconfortáveis repetidas ao longo do tempo.
Com o tempo, isso pode levar a criança ou o adulto a evitar situações sociais, fotos, entrevistas de emprego ou até o contato visual direto durante conversas, criando um padrão de evitação que reforça o desconforto.
Como isso aparece em crianças na escola?
Crianças com estrabismo visível podem ser alvo de apelidos ou comentários de colegas, o que impacta diretamente a forma como se veem e como se relacionam no ambiente escolar. Alguns pais relatam que o filho ficou mais quieto, mais retraído, ou passou a evitar atividades em grupo depois de comentários sobre o olho.
Esse tipo de sinal costuma ser sutil no início e muitas vezes só é percebido quando já afeta o comportamento da criança de forma mais evidente.
E na vida adulta, o impacto é diferente?
Em adultos, o impacto costuma aparecer em contextos profissionais e afetivos. Já ouvi relatos de pacientes que evitavam entrevistas de emprego, apresentações no trabalho ou até relacionamentos por causa da insegurança relacionada ao desvio. Esse desconforto é real e legítimo, mesmo quando a visão em si não está significativamente comprometida.
O tratamento pode ajudar mesmo em casos antigos?
Sim. Muitos adultos que convivem com estrabismo desde a infância e nunca trataram acreditam que já é tarde demais. Não é. Existem opções de tratamento em qualquer idade, incluindo cirurgia, que podem melhorar significativamente o alinhamento e, com isso, o impacto social e emocional que o desvio causava.
O que você não deve fazer
Não minimize o incômodo emocional do seu filho, ou o seu próprio, achando que é uma questão só de vaidade. O impacto psicossocial do estrabismo é um motivo legítimo para buscar tratamento, tanto quanto qualquer sintoma visual.
Cuidar da visão também é cuidar de como a pessoa se sente
Tratar o estrabismo não é apenas uma questão estética ou funcional. É também uma forma de cuidar da confiança e do bem-estar de quem convive com o desvio, em qualquer fase da vida.
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Escrito por Dra. Laís Sakano · Oftalmologista, especialista em Estrabismo e Oftalmopediatria · CRM-SP 184.888 · RQE 85.844 · Membro titular do Centro Brasileiro de Estrabismo (CBE) e chefe do Ambulatório de Oftalmopediatria do Banco de Olhos de Sorocaba (BOS).


